-Texto encomendado pelo Jornal da Tarde, 14/5/99 -

 

EU QUERO UM PEDAÇO DOS ANOS 70 !

Diante do convite do JT para escrever sobre os anos 70 - e mandar o texto “anteontem” – escolho a manhã ensolarada para fazê-lo, cancelo dois mapas astrais e sento – em sentido figurado – no computador, ao som de Blood Sweat & Tears, à guisa de entrar no mood - ou no clima. 

Foi a década mais autêntica e criativa, onde nos sentíamos jovens e sábios ao mesmo tempo. Crente que estávamos abafando, com nossa ideologia peace-and-love tentamos lavar o mundo. Hoje, “ideologia , eu quero uma pra viver”, o que mais se lava - e enxágua - é dinheiro. 

O LSD, com Timothy Leary à frente, quebrou as grades que nos separavam do extra-sensorial. Atualmente, atrás delas, estão enésimos falsificadores de remédios. 

A noite era coberta de glamour enquanto hoje só se conhecem os garçons. Área de lazer gramada lembrava, pavlovianamente, o Festival de Woodstock e não o maníaco do parque. No lugar de achar fumar, há várias vitórias de fumantes na justiça. Madrugada em Ipanema, tocávamos violão na Praça Nossa Senhora da Paz. Depois, caminhávamos para a praia em, certos de que a aurora nos esperaria. Corta pra hoje: todos engaiolados em condomínios ou carros blindados, acompanhados de um inimigo ainda pior, o medo. 

Enquanto o mundo respirava liberdade sexual, no Brasil eram torturados os que defendiam a liberdade de expressão. Agora a humanidade se protege – ou se esconde? – atrás do preservativo. Jurando que esta encarnação será eterna. 

O prazo de validade dos alimentos agora é mais assíduo mas, se comíamos bactérias naquela época, em contrapartida o inconsciente coletivo era muito mais saudável do que o atual. 

A aura do planeta era mais leve e a das pessoas, mais transparente. Amizade era pra valer; havia mais emprego, menos violência e, quem sabe, políticos e juízes menos desonestos que hoje. 

Em Sampa, dançava-se na boate Cave, ao lado de Denner, Dzi Croquettes e The Temptatios. No Rio, a boate Sótão era o point – onde dancei uma vez, sem saber, com Mick Jagger.

E, no mundo inteiro, a safra musical nunca mais repetiu a fertilidade dos 70. 
 
Em 76, surgimos Frenéticas, escancarando suas asas e soltando suas feras – nosso espaço até hoje continua invicto, até hoje nos perguntam por que paramos e quando voltaremos. Será karma , será dharma
 
O fato é que nos 70 vivenciamos o chakra da sexualidade, e nos 90 temos que expandir o da terceira visão, à título de intuir, rapidinho, em que partes do planeta estaremos livres dos tornados, slobodans, saddams e quetais.
 
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