ACORDA, MARACANÃ ! 

(Para Jornal do Brasil,9/5/86) 

O fim de século tá pertinho, mas a maioria parece não se importar muito com assuntos deste gênero, número e grau: a preocupação maior é com a sobrevivência de hoje, mal há tempo de pensar no futuro. E, à guisa de lazer, o flashback está em todas – de regravação de sucesso à episódios de época -, agora “em stereo” no rádio, cinema, tv, música, teatro, etc. Parece que o ar traz uma retrospectiva cósmica, querendo nos avisar de alguma coisa. 

Mas o tempo voa, não dá para frear, mesmo que a intuição geral diga que é a maior cilada vislumbrar a próxima curva, no pé que estamos. Mesmo dando uma ré na máquina, um rewind no gravador ou meia pirueta, tanto faz, pois nem assim o relógio pára – sempre que o piano de Mary Lou Williams toca na vitrola “Over the Raimbow" aparece um beija-flor verde-espelhado para beber água doce. Será a nova encarnação de Harold Arlen?! 

Parece que lá de cima já desistiram de tentar algum contato, a gente mal permite esta abertura telepática, a não ser para descobrir o segredo da bomba do adversário, claro. 

Não há mais tempo para lástimas, do caso Challenger à Chernobyl, do bromato safado à dupla “invencível” Tom - Jerry, mais conhecidas como as bestas (do apocalipse) Reagan e Kadafi: a gente merece esta palhaçada, o ser humano apenas está colhendo o que plantou, deve fazer parte da História, quem sabe. 

E agora, José? Haja passeata! Quando rolaram aquelas contra a usina nuclear de Angra, a 190 km do Rio,  neguinho não deu a menor bola. Agora, “ajoelhou tem que rezar” perde! 

E se o governo mandar desativar tudo que for atômico? Depois disso vai ser mole, a gente “só” vai correr os riscos de sempre, assalto, seca, enchente, bomba daqui, radioatividade dali (ah, Salvador...). Vai ser moleza, a gente tira de letra. Afinal, não somos os mais espertos do planeta?! 

Certa vez, num show beneficente que a gente fez no Aterro - leia-se Frenéticas - contra a usina de Angra, o então ministro Abi Ackel proibiu Joan Baez de cantar. Para piorar, disse ignorá-la, numa declaração na tv - mesmo politicamente. 

Mas tudo passa a ser menor que a inflação atual, perto do que está depois da curva. Plutão entrou em Scorpio em 83 e por lá ficará até 95. O planeta da Grande Virada não perdoa, muito menos esquece o que o ser humano aprontou. O tal “devo-não-nego-pagarei-quando-puder” pode chegar para a humanidade com correção monetária cósmica o que, convenhamos, não vai ficar nem bem pra gente, já pensou?  

A transformação já começou, só não contaram para os terráqueos. O resto do universo anda bem mais informado que nós mesmos, não é bárbaro?!... 

E se os soldados fizerem greve? Será que assim teremos chance de mudar as profecias de Nostradamus, a Bíblia, as previsões astrológicas, o segredo de Fátima que o Papa faz questão de não divulgar, etc e tal ? Tá tudo literalmente na nossa cara, mas a gente não quer ver. Com tanta puxada de tapete, armação e arsenal atômico, você acha que ainda tem alguém sorrindo para a gente lá em cima? “Nêgo” tá é possesso com a gente, isso sim. 

Não foi à tôa que o cacique Seattle – numa carta ao então presidente dos EUA, em 1855 (!!!) profetizou: “Como podes querer comprar ou vender o céu, o calor da terra, se não somos donos da pureza do ar ou do resplendor da água? Esta terra é para nós sagrada. A terra não pertence ao homem, é o homem que pertence à terra. Tudo quanto agride a terra, agride os filhos da terra. Não foi o homem quem teceu a trama da vida: ele é meramente um fio da mesma. Tudo que acontece aos animais, logo acontece ao homem, tudo está relacionado entre si” – corta, em slow, para a cena do banquete do último filme do Pasolini, que lhe valeu a vida, Salô ...pode ser mais apocalíptica?!... 

Portanto, nada nos impede de mentalizar pela transmutação da guerra-do-poder em Paz Mundial, ou sintonizar um monte de nave no céu nos levando para bem longe da radioatividade, até porque, para Deus nada é impossível. O jeito é gargalhar enquanto dá. Rá.
 
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