TRÂNSITO

Quanto mais o cotidiano nos aproxima da sobrevivência, mais nos afasta do essencial. O jeito é ligar o automático e cumprir, na medida do possível, as hercúleas e imprevisíveis tarefas diárias. É aí que mora o perigo: advinhe quem vem pra atrapalhar, quem? O trânsito, meu amor. Este, definitivamente, é o maior karma do carioca - eu sei que karma já foi aportuguesado, mas com k é mais expressivo.

Sem loja de cachorro no Jardim Botânico, vai-se até o Humaitá comprar ração. De cara, meia hora na Von Martius, por causa de não sei o quê na Pacheco Leão, parece uma bad trip de Artani dos anos 70. Mas você não vai se estressar - afinal, mora perto do mato para suportar o lado urbanóide. Portanto, entre um ponto morto e uma primeira, quiçá antes de usar o freio, já está lido o Segundo Caderno do jornal in-tei-ro. 

Uma hora depois chega-se, com perdão da palavra, ao Humaitá que, pior que ele, só Botafogo e obra. Falabella pega muito leve quando execra este bairro em sua peça. Pergunta-se à guarda se pode “pegar uma ração rápida”, ela diz que não. O sinal fecha, você pára o carro imediatamente - se avançar, periga ela ter um orgasmo múltiplo antes de lhe multar. Tem gente que só sente prazer assim. Deve ser defeito de fabricação, resquício de vida passada ou trauma de infância mesmo. Não é à tôa que no trânsito, desta vez astrológico, tinha uma quadratura desafiadora de Marte e Urano, quem mandou subestimar? A velha história, “casa de ferreiro, espeto de pau”. 

Pensando bem, nem devia ter saído. Volta pra casa, toma uma chuveirada. Não satisfeita, desmarca o trabalho, pega o cachorro, sobe um morro, desce outro e cai de boca na cachoeira, que te recebe em grande estilo de eterna anfitriã. 

Exorcizadas as mazelas do cotidiano e, se bobear, até os karmas de vida passada, deita numa pedra e faz uma viagem astral. 

De volta à realidade, foca a lente e avista n macacos brincando nas árvores e imensas borboletas azuis em volta do seu corpo estirado, como se lhe dessem um beijo etéreo, um passe cósmico.

Você olha a cena, posiciona a luz e a câmera, dirige, edita, sonoriza e contempla, em slow motion, a alegria que respira aquele paraíso. Quando se dá conta, está comungando com ele e agradecendo ao universo por morar numa cidade, que além de trânsito, ainda tem lugares de paz como este, onde se pode viver o essencial .
Publicado no Jornal de Bairros Zona Sul, Jornal O Globo maybe 1996.
 
 
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